terça-feira, dezembro 29, 2009

Terra e Humanidade: uma comunidade de destino


Leonardo Boff
Teólogo


Temos que começar o ano com esperança pois urge fazer frente ao clima de revolta e de frustração que significou a COP 15 de Copenhague. Seguramente o aquecimento global comporta graves conseqüências. No entanto, numa perspectiva mais filosofante, ele não se destinaria a destruir o projeto planetário humano mas obriga-lo a elevar-se a um patamar mais alto para que seja realmente planetário. Urge passar do local ao global e do nacional ao planetário.

Se olharmos para trás, para o processo da antropogênese, podemos seguramente dizer: a crise atual, como as anteriores, não nos levará à morte mas à uma integração necessária da Terra com a Humanidade. Será a geosociedade. Neste caso, estaríamos então, face a um sol nascente e não a um sol poente.

Tal fato objetivo comporta um dado subjetivo: a irrupção da consciência planetária com a percepção de que formamos uma única espécie, ocupando uma casa comum com a qual formamos uma comunidade de destino. Isso nunca ocorreu antes e constitui o novo da atual fase histórica.

Inegavelmente há um processo em curso que já tem bilhões de anos: a ascensão rumo à consciência. A partir de geosfera (Terra) surgiu a hidrosfera (água), em seguida a litosfera (continentes), posteriormente a biosfera (vida), a antropofesfera (ser humano) e para os cristãos a cristosfera (Cristo). Agora estaríamos na iminência de outro salto na evolução: a irrupção da noosfera que supõe o encontro de todos os povos num único lugar, vale dizer, no planeta Terra e com a consciência planetária comum. Noosfera como a palavra sugere (nous em grego significa mente e inteligência), expressa a convergência de mentes e de corações dando origem a uma unidade mais alta e complexa.

O que, entretanto, nos falta é uma Declaração Universal do Bem Comum da Terra e da Humanidade que coordene as consciências e faça convergir as diferentes políticas. Até agora nos limitávamos a pensar no bem comum de cada pais. Alargamos o horizonte ao propor uma Carta dos Direitos Humanos. Esta foi a grande luta cultural do século XX. Mas agora emerge a preocupação pela Humanidade como um todo e pela Terra, entendida não como algo inerte, mas como um superorganismo vivo do qual nós humanos somos sua expressão consciente. Como garantir os direitos da Terra junto com os da Humanidade? A Carta da Terra surgida nos inícios do século XXI procura atender a esta demanda.

A crise global nos está exigindo uma governança global para coordenar soluções globais para problemas globais. Oxalá não surjam centros totalitários de comando mas uma rede de centros multidimensionais de observação, de análise, de pensamento e de direção visando o bem viver geral.

Trata-se apenas do começo de uma nova etapa da história, a etapa da Terra unida com a Humanidade (que é a expressão consciente da Terra). Ou a etapa da Humanidade (parte da Terra) unida à própria Terra, constituindo juntas uma única entidade una e diversa chamada de Gaia ou de Grande Mãe.

Estamos vivendo agora a idade de ferro da noosfera, cheia de contradições. Mas mesmo assim, cremos que todas as forças do universo conspiram para que ela se firme. Para ela está marchando nosso sistema solar, quem sabe a inteira galáxia e até este tipo de universo, pois, segundo a teoria das cordas, pode haver outros, paralelos. Ela é frágil e vulnerável mas carregada de novas energias, capazes de moldar um novo futuro. Talvez a noosfera seja agora somente uma chama tremulante. Mas ela representa o que deve ser. E o que deve ser tem força. Tende a se realizar.

Leonardo Boff é autor de A nova era: a civilização planetária, Record 2008.

sábado, dezembro 19, 2009

A FIGUEIRA DO INFERNO (curta-metragem)



Dados técnicos:

A Figueira do Inferno

Gênero Documentário
Diretor Ernesto Teodósio, Raoni Vale
Elenco Dr. Raiz, Prof. Pedro Luz, Zé Borba
Ano 2004
Duração 25 min
Cor Cor e P&B
Bitola 35mm
País Brasil
Local de Produção: PE

Um Registro Etno-botânico da utilização de Daturas e Brugmânsias no nordeste brasileiro.

Ficha Técnica
Fotografia Jura, Guilherme Torres, Leo Satte, Karen Ackemar Roteiro Raoni Vale, Ernesto Teodósio, Abel Alencar Edição Grilo, VTI Som Direto Luís Eduardo Bum, Osman Assis Animação Juliana Freitas Empresa produtora Telephone Colorido Direção de produção Antonio Carrilho, Rosa Melo, Enaile Lima, Juliana Freitas, Mariana Smith Produção Executiva Antonio Carrilho, Rosa Melo, Enaile Lima, Juliana Freitas, Mariana Smith, Ernesto, Raoni Montagem Grilo Música Thelmo Cristovan

PrêmiosPrêmio Espaço Unibanco no Festival Internacional de Curtas de São Paulo 2004
Melhor Documentário no Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro - Curta Cinema 2004
Menção Honrosa no Festival Internacional de Curtas-Metragens de Belo Horizonte 2004
Finalista no Grande Prêmio TAM do Cinema Brasileiro 2005
Melhor Documentário no Cine Amazônia 2004
Prêmio ABD e C no Cine Amazônia 2004

Festivais
EcoCine - Bonito/SP 2004
Festival de Cinema e Vídeo Ecológico de São Sebastião - SP 2004
Festival de Curtas de Belo Horizonte 2004

CONFRONTOS EM COPENHAGUE


Por Leonardo Boff

Em Copenhague nas discussões sobre as taxas de redução dos gases produtores de mudanças climáticas, duas visões de mundo se confrontam: a da maioria dos que estão fora da Assembléia, vindo de todas as partes do mundo e a dos poucos que estão dentro dela, representando os 192 estados. Estas visões diferentes são prenhes de conseqüências, significando, no seu termo, a garantia ou a destruição de um futuro comum.

Os que estão dentro, fundamentalmente, reafirmam o sistema atual de produção e de consumo mesmo sabendo que implica sacrificação da natureza e criação de desigualdades sociais. Crêem que com algumas regulações e controles a máquina pode continuar produzindo crescimento material e ganhos como ocorria antes da crise.

Mas importa denunciar que exatamente este sistema se constitui no principal causador do aquecimento global emitindo 40 bilhões de toneladas anuais de gases poluentes. Tanto o aquecimento global quanto as perturbações da natureza e a injustiça social mundial são tidas como externalidades, vale dizer, realidades não intencionadas e que por isso não entram na contabilidade geral dos estados e das empresas. Finalmente o que conta mesmo é o lucro e um PIB positivo.

Ocorre que estas externalidades se tornaram tão ameaçadoras que estão desestabilizando o sistema-Terra, mostrando a falência do modelo econômico neoliberal e expondo em grave risco o futuro da espécie humana.

Não passa pela cabeça dos representantes dos povos que a alternativa é a troca de modo de produção que implica uma relação de sinergia com a natureza. Reduzir apenas as emissões de carbono mas mantendo a mesma vontade de pilhagem dos recursos é como se colocássemos um pé no pescoço de alguém e lhe dissésemos: quero sua liberdade mas à condição de continuar com o meu pé em seu pescoço.

Precisamos impugnar a filosofia subjacente a esta cosmovisão. Ela desconhece os limites da Terra, afirma que o ser humano é essencialmente egoista e que por isso não pode ser mudado e que pode dispor da natureza como quiser, que a competição é natural e que pela seleção natural os fracos são engolidos pelos mais fortes e que o mercado é o regulador de toda a vida econômica e social.

Em contraposição reafirmamos que o ser humano é essencialmente cooperativo porque é um ser social. Mas faz-se egoísta quando rompe com sua própria essência. Dando centralidade ao egoísmo, como o faz o sistema do capital, torna impossível uma sociedade de rosto humano. Um fato recente o mostra: em 50 anos os pobres receberam de ajuda dois trilhões de dólares enquanto os bancos em um ano receberam 18 trilhões. Não é a competição que constitui a dinâmica central do universo e da vida mas a cooperação de todos com todos. Depois que se descobriram os genes, as bactérias e os vírus, como principais fatores da evolução, não se pode mais sustentar a seleção natural como se fazia antes. Esta serviu de base para o darwinismo social. O mercado entregue à sua lógica interna, opõe todos contra todos e assim dilacera o tecido social. Postulamos uma sociedade com mercado mas não de mercado.

A outra visão dos representantes da sociedade civil mundial sustenta: a situação da Terra e da humanidade é tão grave que somente o princípio de cooperação e uma nova relação de sinergia e de respeito para com a natureza nos poderão salvar. Sem isso vamos para o abismo que cavamos.

Essa cooperação não é uma virtude qualquer. É aquela que outrora nos permitiu deixar para trás o mundo animal e inaugurar o mundo humano. Somos essencialmente seres cooperativos e solidários sem o que nos entredevoramos. Por isso a economia deve dar lugar à ecologia. Ou fazemos esta virada ou Gaia poderá continuar sem nós.

A forma mais imediata de nos salvar é voltar à ética do cuidado, buscando o trabalho sem exploração, a produção sem contaminação, a competência sem arrogância e a solidariedade a partir dos mais fracos. Este é o grande salto que se impõe neste momento. A partir dele Terra e Humanidade podem entrar num acordo que salvará a ambos

Leonardo Boff, teólogo, é autor de Convivência, tolerância e respeito, Vozes, 2008.

(Colaboração: Valéria Viana Labrea).

segunda-feira, dezembro 07, 2009

O QUE ESTÁ EM JOGO EM COPENHAGUE?


Leonardo Boff
Teólogo

Em Copenhague os 192 representantes dos povos vão se confrontar com uma irreversibilidade: a Terra já se aqueceu, em grande, por causa de nosso estilo de produzir, de consumir e de tratar a natureza. Só nos cabe adaptamo-nos às mudanças e mitigar seus efeitos perversos.

O normal seria que a humanidade se pergunta-se, como um medico faz ao seu paciente: por que chegamos a esta situação? Importa considerar os sintomas e identificar a causa. Errôneo seria tratar dos sintomas deixando a causa intocada continuando a ameaçar a saúde do paciente.

É exatamente o que parece estar ocorrendo em Copenhague. Procuram-se meios para tratar os sintomas mas não se vai à causa fundamental. A mudança climática com eventos extremos é um sintoma produzido por gases de efeito estufa que tem a digital humana. As soluções sugeridas são: diminuir as porcentagens dos gases, mais altas para os paises industrializados e mais baixas para os em desenvolvimento; criar fundos financeiros para socorrer os paises pobres e transferir tecnologias para os retardatários. Tudo isso no quadro de infindáveis discussões que emperram os consensos mínimos.

Estas medidas atacam apenas os sintomas. Há que se ir mais fundo, às causas que produzem tais gases prejudiciais à saúde de todos os viventes e da própria Terra. Copenhague dar-se-ia a ocasião de se fazer com coragem um balanço de nossas práticas em relação com a natureza, com humildade reconhecer nossa responsabilidade e com sabedoria receitar o remédio adequado.Mas não é isto que está previsto. A estratégia dominante é receitar asperina para quem tem uma grave doença cardíaca ao invés de fazer um transplante.

Tem razão a Carta da Terra quando reza:”Como nunca antes na história, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo...Isto requer uma mudança na mente e no coração”. É isso mesmo: não bastam remendos; precisamos recomeçar, quer dizer, encontrar uma forma diferente de habitar a Terra, de produzir e de consumir com uma mente cooperativa e um coração compassivo.

De saída, urge reconhecer: o problema em si não é a Terra, mas nossa relação para com ela. Ela viveu mais de quatro bilhões de anos sem nós e pode continuar tranquilamente sem nós. Nós não podemos viver sem a Terra, sem seus recursos e serviços. Temos que mudar. A alternativa à mudança é aceitar o risco de nossa própria destruição e de uma terrível devastação da biodiversidade.

Qual é a causa? É o sonho de buscar a felicidade que se alcança pela acumulação de riqueza material e pelo progresso sem fim, usando para isso a ciência e a técnica com as quais se pode explorar de forma ilimitada todos os recursos da Terra. Essa felicidade é buscada individualmente, entrando em competição uns com os outros, favorecendo assim o egoísmo, a ambição e a falta de solidariedade.

Nesta competição os fracos são vitimas daquilo que Darwin chama de seleção natural. Só os que melhor se adaptam, merecem sobreviver, os demais são, naturalmente, selecionados e condenados a desaparecer.
Durante séculos predominou este sonho ilusório, fazendo poucos ricos de um lado e muitos pobres do outro à custa de uma espantosa devastação da natureza.

Raramente se colocou a questão: pode uma Terra finita suportar um projeto infinito? A resposta nos vem sendo dada pela própria Terra. Ela não consegue, sozinha, repor o que se extraiu dela; perdeu seu equilíbrio interno por causa do caos que criamos em sua base físico-química e pela poluição atmosférica que a fez mudar de estado. A continuar por esse caminho comprometeremos nosso futuro.

Que se poderia esperar de Copenhague? Apenas essa singela confissão: assim como estamos não podemos continuar. E um simples propósito: Vamos mudar de rumo. Ao invés da competição, a cooperação. Ao invés de progresso sem fim, a harmonia com os ritmos da Terra. No lugar do individualismo, a solidariedade generacional. Utopia? Sim, mas uma utopia necessária para garantir um porvir.

Leonardo Boff é autor de Homem: Satã ou Anjo bom? Record 2008.

(Colaboração: Valéria Viana Labrea)

sábado, dezembro 05, 2009

BALÉ DE 300 MIL PÁSSAROS NA PRIMAVERA




Fonte: YouTube.

Colaboração: Werner Ximendes Beck.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

PREDADOR vs. PRESA

video


Fonte: Internet.

Colaboração: Vinícius Ferreira Carvalho.

segunda-feira, novembro 30, 2009

QUEM DEVE CUIDAR DO PLANETA?


Leonardo Boff
Teólogo

Um teólogo famoso, no seu melhor livro – Introdução ao Cristianismo – ampliou a conhecida metáfora do fim do mundo formulada pelo dinamarquês Sören Kirkegaard, já referida nesta coluna. Ele reconta assim a história: num circo ambulante, um pouco fora da vila, instalou-se grave incêndio. O diretor chamou o palhaço que estava pronto para entrar em cena que fosse até à vila para pedir socorro. Foi incontinenti. Gritava pela praça central e pelas ruas, conclamando o povo para que viesse ajudar a apagar o incêndio. Todos achavam graça pois pensavam que era um truque de propaganda para atrair o público. Quanto mais gritava, mais riam todos. O palhaço pôs-se a chorar e então todos riam mais ainda. Ocorre que o fogo se espalhou pelo campo, atingiu a vila e ela e o circo queimaram totalmente. Esse teólogo era Joseph Ratzinger. Ele hoje é Papa e não produz mais teologia mas doutrinas oficiais. Sua metáfora, no entanto, se aplica bem à atual situação da humanidade que tem os olhos voltados para o pais de Kirkegaard e sua capital Copenhague. Os 192 representantes dos povos devem decidir as formas de controlar o fogo ameaçador. Mas a consciência do risco não está à altura da ameaça do incêndio generalizado. O calor crescente se faz sentir e a grande maioria continua indiferente, como nos tempos de Noé que é o “palhaço” bíblico alertando para o dilúvio iminente. Todos se divertiam, comiam e bebiam, como se nada pudesse acontecer. E então veio a catástrofe.

Mas há uma diferença entre Noé e nós. Ele construiu uma arca que salvou a muitos. Nós não estamos dispostos a construir arca nenhuma que salve a nós e a natureza. Isso só é possível se diminuirmos consideravelmente as substâncias que alimentam o aquecimento. Se este ultrapassar dois a três graus Celsius poderá devastar toda a natureza e, eventualmente, eliminar milhões de pessoas. O consenso é difícil e as metas de emissão, insuficientes. Preferimos nos enganar cobrindo o corpo da Mãe Terra com band-aids na ilusão de que estamos tratando de suas feridas.

Há um agravante: não há uma governança global para atuar de forma global. Predominam os estados-nações com seus projetos particulares sem pensarem no todo. Absurdamente dividimos esse todo de forma arbitrária, por continentes, regiões, culturas e etnias. Sabemos hoje que estas diferenciações não possuem base nenhuma. A pesquisa científica deixou claro que todos temos uma origem comum pois que todos viemos da África.

Consequentemente, todos somos coproprietários da única Casa Comum e somos corresponsáveis pela sua saúde. A Terra pertence a todos. Nós a pedimos emprestado das gerações futuras e nos foi entregue em confiança para que cuidássemos dela.

Se olharmos o que estamos fazendo, devemos reconhecer que a estamos traindo. Amamos mais o lucro que a vida, estamos mais empenhados em salvar o sistema econômico-financeiro que a humanidade e a Terra.

Aos humanos como um todo se aplicam as palavras de Einstein: “somente há dois infinitos: o universo e a estupidez; e não estou seguro do primeiro”. Sim, vivemos numa cultura da estupidez e da insensatez. Não é estúpido e insano que 500 milhões sejam responsáveis por 50% de todas as emissões de gases de efeito estufa e que 3,4 bilhões respondam apenas por 7% e sendo as principais vitimas inocentes? É importante dizer que o aquecimento mais que uma crise configura uma irreversibilidade. A Terra já se aqueceu. Apenas nos resta diminuir seus níveis, adaptarmo-nos à nova situação e mitigar seus efeitos perversos para que não sejam catastróficos. Temos que torcer para que em Copenhague entre 7 e 18 de dezembro não prevaleça a estupidez mas o cuidado pelo nosso destino comum.

Leonardo Boff é autor de Opção-Terra. A solução para a Terra não cai do céu, Record 2009.

(Colaboração: Valéria Viana Labrea)

terça-feira, novembro 24, 2009

O ENCANTO DOS ORIXÁS


Por Leonardo Boff

Quando atinge grau elevado de complexidade, toda cultura encontra sua expressão artística, literária e espiritual. Mas ao criar uma religião a partir de uma experiência profunda do Mistério do mundo, ela alcança sua maturidade e aponta para valores universais. É o que representa a Umbanda, religião, nascida em Niterói, no Rio de Janeiro, em 1908, bebendo das matrizes da mais genuina brasilidade, feita de europeus, de africanos e de indígenas. Num contexto de desamparo social, com milhares de pessoas desenraizadas, vindas da selva e dos grotões do Brasil profundo, desempregadas, doentes pela insalubridade notória do Rio nos inícios do século XX, irrompeu uma fortíssima experiência espiritual.

O interiorano Zélio Moraes atesta a comunicação da Divindade sob a figura do Caboclo das Sete Encruzilhadas da tradição indígena e do Preto Velho da dos escravos. Essa revelação tem como destinatários primordiais os humildes e destituídos de todo apoio material e espiritual. Ela quer reforçar neles a percepção da profunda igualdade entre todos, homens e mulheres, se propõe potenciar a caridade e o amor fraterno, mitigar as injustiças, consolar os aflitos e reintegrar o ser humano na natureza sob a égide do Evangelho e da figura sagrada do Divino Mestre Jesus.

O nome Umbanda é carregado de significação. É composto de OM (o som originário do universo nas tradições orientais) e de BANDHA (movimento inecessante da força divina). Sincretiza de forma criativa elementos das várias tradições religiosas de nosso pais criando um sistema coerente. Privilegia as tradições do Candomblé da Bahia por serem as mais populares e próximas aos seres humanos em suas necessidades. Mas não as considera como entidades, apenas como forças ou espíritos puros que através dos Guias espirituais se acercam das pessoas para ajudá-las. Os Orixás, a Mata Virgem, o Rompe Mato, o Sete Flechas, a Cachoeira, a Jurema e os Caboclos representam facetas arquetípicas da Divindade. Elas não multiplicam Deus num falso panteismo mas concretizam, sob os mais diversos nomes, o único e mesmo Deus. Este se sacramentaliza nos elementos da natureza como nas montanhas, nas cachoeiras, nas matas, no mar, no fogo e nas tempestades. Ao confrontar-se com estas realidades, o fiel entra em comunhão com Deus.

A Umbanda é uma religião profundamente ecológica. Devolve ao ser humano o sentido da reverência face às energias cósmicas. Renuncia aos sacrifícios de animais para restringir-se somente às flores e à luz, realidades sutis e espirituais.

Há um diplomata brasileiro, Flávio Perri, que serviu em embaixadas importantes como Paris, Roma, Genebra e Nova York que se deixou encantar pela religião da Umbanda. Com recursos das ciências comparadas das religiões e dos vários métodos hermenêuticos elaborou perspicazes reflexões que levam exatamente este título O Encanto dos Orixás, desvendando-nos a riqueza espiritual da Umbanda. Permeia seu trabalho com poemas próprios de fina percepção espiritual. Ele se inscreve no gênero dos poetas-pensadores e místicos como Alvaro Campos (Fernando Pessoa), Murilo Mendes, T. S. Elliot e o sufi Rumi. Mesmo sob o encanto, seu estilo é contido, sem qualquer exaltação, pois é esse rigor que a natureza do espiritual exige.

Além disso, ajuda a desmontar preconceitos que cercam a Umbanda, por causa de suas origens nos pobres da cultura popular, espontaneamente sincréticos. Que eles tenham produzido significativa espiritualidade e criado uma religião cujos meios de expressão são puros e singelos revela quão profunda e rica é a cultura desses humilhados e ofendidos, nossos irmãos e irmãs. Como se dizia nos primórdios do Cristianismo que, em sua origem também era uma religião de escravos e de marginalizados, “os pobres são nossos mestres, os humildes, nossos doutores”.

Talvez algum leitor/a estranhe que um teólogo como eu diga tudo isso que escrevi. Apenas respondo: um teólogo que não consegue ver Deus para além dos limites de sua religião ou igreja não é um bom teólogo. É antes um erudito de doutrinas. Perde a ocasião de se encontrar com Deus que se comunica por outros caminhos e que fala por diferentes mensageiros, seus verdadeiros anjos. Deus desborda de nossas cabeças e dogmas.

Leonardo Boff é teólogo e autor de "Meditação da Luz:o caminho da simplicidade". Petrópolis:Vozes, 2009.

(Colaboração: Valéria Viana Labrea)

domingo, novembro 22, 2009

ILHA DAS FLORES (curta metragem) (1989)




Ilha das Flores

Gênero Documentário, Experimental
Diretor Jorge Furtado
Elenco Ciça Reckziegel
Ano 1989
Duração 13 min
Cor Colorido
Bitola 35mm
País Brasil
Local de Produção: RS

Um ácido e divertido retrato da mecânica da sociedade de consumo. Acompanhando a trajetória de um simples tomate, desde a plantação até ser jogado fora, o curta escancara o processo de geração de riqueza e as desigualdades que surgem no meio do caminho.

Ficha Técnica

Produção Mônica Schmiedt, Giba Assis Brasil, Nôra Gulart Fotografia Roberto Henkin, Sérgio Amon Roteiro Jorge Furtado Edição Giba Assis Brasil Direção de Arte Fiapo Barth Trilha original Geraldo Flach Narração Paulo José

Prêmios
Urso de Prata no Festival de Berlim 1990
Prêmio Crítica e Público no Festival de Clermont-Ferrand 1991
Melhor Curta no Festival de Gramado 1989
Melhor Edição no Festival de Gramado 1989
Melhor Roteiro no Festival de Gramado 1989
Prêmio da Crítica no Festival de Gramado 1989
Prêmio do Público na Competição "No Budget" no Festival de Hamburgo 1991

quinta-feira, outubro 15, 2009

quinta-feira, outubro 08, 2009

segunda-feira, setembro 21, 2009

CRISE AMBIENTAL E ECOSSOCIALISMO

Paccelli José Maracci Zahler

Na Semana da Pátria de 2009, o governo brasileiro anunciou a compra de 36 aviões de combate Rafale franceses para uso da Força Aérea Brasileira ao custo estimado de 4 bilhões de dólares.
Particularmente, não tenho nada contra a modernização das nossas Forças Armadas, uma vez que o armamento utilizado para patrulhar e proteger as nossas fronteiras é da década de 1970. Além disso, com a descoberta de reservas de petróleo em águas territoriais e a cobiça internacional por fontes de energia, o país deve estar preparado para dissuadir qualquer tentativa de tomada das nossas riquezas minerais por parte de outras nações.
Por outro lado, existem questões ambientais, questões de saneamento básico e de saúde pública que necessitam da nossa atenção.
O artigo intitulado “O peso do homem na Amazônia”, Revista VEJA, Especial Amazônia, de setembro de 2009, traz alguns números preocupantes. Vejamos: na Região Norte somente 9,7 % dos domicílios são atendidos pela rede de esgoto, enquanto a média nacional é de 51 %; a cidade de Belém lança nos rios e igarapés 92 milhões de metros cúbicos de esgoto não tratado por ano.
Com relação à saúde pública, a tuberculose chega em média a 46 casos por 100 mil habitantes, 20 % acima da média nacional; a hanseníase chega a 69,4 casos para cada 100 mil habitantes, enquanto a média nacional é de 26,2 casos por 100 mil habitantes.
No que tange à desnutrição em crianças em idade escolar, em Manaus a taxa é de 10 %; no interior do Estado do Amazonas, de 23 %; e nas comunidades às margens do Rio Negro chega a 35 %. A média nacional é de 7 %.
Desmata-se, em média, 50 km2 de floresta por dia, o que significa um total de 370 mil km2 desmatados na Região Amazônica nos últimos 20 anos.
Deixando a Região Norte de lado e vindo para o Sul, verificamos um aumento da criminalidade, da insegurança, dos problemas psiquiátricos decorrentes do estresse, das licenças médicas por lesões por esforço repetitivo (LER), pois as atividades laborais são incompatíveis com a natureza humana, somados à poluição por emissões de gases das fábricas, dos automóveis, da poluição visual e sonora, do acúmulo de lixo nas esquinas, dos moradores de rua, do consumo de drogas.
Quem já viveu algumas décadas percebe que a vida está desequilibrada e que as pessoas andam com os nervos à flor da pele.
Recentemente, veio a notícia de que um açougueiro seguira e degolara uma senhora porque ela havia pisado no seu pé, embora tenha pedido desculpas.
Há alguns anos, um médico esquartejou sua namorada porque se sentia incomodado com a presença dela no seu consultório.
Diante disso, há uma voz no peito de cada ente humano clamando por uma mudança na sociedade.
Não é possível que, diante de tantos problemas ambientais e de saúde ocasionados pelo atual sistema de trabalho e de produção se insista em investir na criação de “necessidades desnecessárias”.
Há que se perguntar: Para quê tantos carros novos que usam combustíveis derivados do petróleo se o mundo caminha para a redução dos gases que causam o efeito estufa? Para quê tanta variedade de telefones sendo lançados mensalmente com tanta tecnologia? Para quê tanta informação e propaganda inúteis e tanto investimento na imagem e no marketing pessoal, na indústria da vaidade?
É duro pensar que, mesmo com os anunciados recordes de produção agrícola, existam pessoas desnutridas ou morrendo de fome. Além disso, a temperatura do planeta está aumentando em função da ação predatória do homem nos ecossistemas e a tendência é que as perdas na agricultura passem a ser mais freqüentes.
Em matéria do Jornal O ESTADO DE SÃO PAULO, edição de 17.set.2009, o Prof. Carlos Eduardo Pellegrino Cerri, do Departamento de Ciência do Solo da Escola Superior de Agricultura ‘Luiz de Queiroz” – USP, diz que “os atuais 26 milhões de hectares de culturas que utilizam o plantio direto em todo o País são responsáveis pelo seqüestro de pelo menos 13 milhões de toneladas de CO2 ao ano”. Por outro lado, a agricultura responde hoje por cerca de 30 % das emissões de poluentes do Brasil e tem sido apontada como uma vilã do meio ambiente, embora exista tecnologia para minimizar o impacto ambiental das culturas.
Segundo o Programa Mundial de Alimentação da Organização das Nações Unidas (Jornal CORREIO BRAZILIENSE, edição de 17.set.2009), no ano de 2009, 87 milhões de pessoas passaram à condição de famintas em 2009 e a fome já ameaça 1,02 bilhão de pessoas em todo o planeta; e sete países concentram 65 % dos famintos: Índia, China, República Democrática do Congo, Bangladesh, Indonésia, Paquistão e Etiópia. Por outro lado, o Quênia, a Guatemala e Bangladesh representam os maiores desafios.
Não seria mais racional encontrar alternativas para a reciclagem dos resíduos que as indústrias e as cidades produzem antes de pensar em novidades tecnológicas cuja função é somente estimular o consumismo e gerar lucro?
Não seria importante que, concomitantemente com a compra de armas para equipar as Forças Armadas, destinar recursos para a saúde, para a educação e para o desenvolvimento sustentável?
Infelizmente, os governos medem o desenvolvimento de um país pelas estatísticas, pelo lucro obtido por suas indústrias e empresas, sem se preocuparem com o bem-estar, com a ergonomia, com as condições de vida dos trabalhadores que, nestes casos, são tratados como peças da linha de produção, podendo ser substituídos, descartados, reciclados ou repostos, dependendo dos humores das bolsas de valores. Por outro lado, isso parece estar mudando porque, em matéria do Jornal FOLHA DE SÃO PAULO, edição de 17.set.2009, o presidente francês Nicolas Sarkozy sugeriu a adoção de novos indicadores de desempenho econômico propostos por uma comissão de economistas presidida por Joseph Stiglitz, americano, prêmio Nobel de Economia. Segundo a comissão, no cálculo do Produto Interno Bruto (PIB) seria considerado o bem-estar dos cidadãos e a sustentabilidade da economia e dos recursos naturais de um país.
Segundo Batista (2009), o sistema capitalista, estando a serviço de uma pequena elite mundial, busca se apropriar da vida por meio dos mecanismos de produção, reprodução, consumo, opressão e alienação.
Isso vem ao encontro da análise da sociedade feita por Foucault (citado por Muchail, 2009) de que vivemos atualmente em uma “sociedade disciplinar” na qual a “disciplina” envolve certos traços que, conjugados e complementares, garantem o seu funcionamento, qual sejam: a organização do “espaço” onde se distribuem os indivíduos; o controle do “tempo”; e a “vigilância ininterrupta”; além do “registro”, ou seja, da anotação do que é continuamente vigiado. Dessa maneira, são criadas condições para a construção de saberes a serem reconhecíveis como verdadeiros, em outras palavras, ocorre uma “produção de verdades”, onde os cidadãos precisam ser enquadrados (“normalizados”).
Realmente, como cidadãos nascidos, criados, educados e inseridos no sistema de produção capitalista aprendemos e achamos normais algumas “verdades” que são passadas de geração a geração.
Jaspers (2008) faz uma análise interessante do posicionamento do homem frente à profusão de informações que chegam diariamente das mais diversas fontes e que acabam promovendo sua alienação. Diz este autor:
Vendo-nos à mercê de fatos políticos e econômicos sobre os quais julgamos não ter a menor influência, sentimo-nos tentados a refugiar-nos em uma existência apolítica. Contudo, aqueles fatos são manipulados por homens. Os homens podem refletir, conhecer, alterar procedimentos, podem pensar e agir em conjunto. Consequentemente, aquela fuga nos torna cúmplices de crimes políticos.
No caso brasileiro, Barbosa (2009) diz que as reformas econômicas dos anos noventa associaram-se às heranças históricas para gerar uma sociedade onde a desigualdade passou a ser cada vez mais naturalizada, enquanto o individualismo tende a corroer as possibilidades de transformação coletiva.
Dentro desse contexto de busca de novas alternativas para a sociedade em meio a uma crise ambiental vem surgindo o ecossocialismo que, segundo Löwy (2009), é “uma corrente de pensamento e de ação que se reclama ao mesmo tempo da defesa ecológica do meio ambiente e da luta por uma alternativa socialista. Isso porque a lógica do mercado e do lucro capitalistas conduz à destruição dos equilíbrios naturais, com conseqüências catastróficas para a humanidade. Esta afirmação pode ser constatada nos fatos acima elencados.
O fundamentos do ecossocialismo encontram-se expressos em dois manifestos: o Manifesto Ecossocialista Internacional, assinados por Joel Kovel e Michael Löwy, datado de setembro de 2001 e disponível em www.ecossocialistas.org.br , onde os autores afirmam que o capital reduz a maioria das pessoas a mero reservatório de mão-de-obra, descartando aqueles considerados inúteis ao mesmo tempo que mina a integridade das comunidades por meio de uma cultura de massas global de consumismo e despolitização; já no 2º Manifesto Ecossocialista (Declaração Ecossocialista de Belém), também disponível na página citada, datada de janeiro de 2009 e assinada por Michael Löwy, Joel Kovel e Ian Angus, os autores enfatizam que as tentativas capitalistas de resolver a crise ecológica fracassaram e que somente uma mudança profunda na própria natureza da civilização pode salvar a humanidade das conseqüências das mudanças climáticas. Assim, o ecossocialismo propõe a substituição dos combustíveis fósseis por fontes limpas de energia; o transporte público gratuito e eficiente; a adoção de uma arquitetura verde sustentável;a produção e distribuição de alimentos, garantindo a segurança alimentar, aliado à criação de agroecossistemas sustentáveis e ao trabalho de renovação da fertilidade do solo.
O ecossocialismo pode vir a ser um caminho, entretanto é necessário superar vários paradigmas, uma vez que a cultura, o sistema de produção capitalista, a sociedade, o pensamento, não mudam de uma hora para outra.


BIBLIOGRAFIA

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BATISTA, Gabriela Barbosa. Fórum Social Mundial e Ecossocialismo. Disponível em: http://juventudedeterrazul.blogspot.com/2009/03/forum-social-mundial-e-o-ecossocialismo.html Acesso em: 16.set.2009.

CRAVEIRO, Rodrigo. Catástrofe humanitária: fome já castiga mais de 1 bilhão. Jornal CORREIO BRAZILIENSE, edição de 17.set.2009. Disponível em: http://www2.correiobraziliense.com.br/cbonline/mundo/pri_mun_95.htm Acesso em: 17.set.2009.

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JASPERS, Karl. Introdução ao pensamento filosófico. São Paulo: Cultrix, 2008.

LÖWY, Michael. O que é o ecossocialismo. Disponível em: http://www.democraciasocialista.org.br. Acesso em: 14.set.2009.

MUCHAIL, Salma Tannus. A produção da verdade. Revista CIÊNCIA & VIDA, Filosofia Especial nº 8, ano II, p. 6-11.

Revista VEJA, Especial Amazônia, ano 42, nº 2.130, set.2009, p. 16-17.

VIALLI, Andrea. Seqüestro de carbono chega à agricultura. Caderno de Economia. Jornal O ESTADO DE SÃO PAULO, Edição de 16.set.2009. Disponível em: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090916/not_imp435635,0.php.
Acesso em: 17.set.2009.

www.ecossocialistas.org.br

quinta-feira, setembro 17, 2009

DECLARAÇÃO ECOSSOCIALISTA DE BELÉM (2º MANIFESTO ECOSSOCIALISTA)

Comitê de Redação: Michael Lowy e Joel Kovel e Ian Angus (janeiro 2009)

"El mundo tiene fiebre por el cambio climático y la enfermedad se llama modelo de desarrollo capitalista" — Evo Morales, presidente da Bolívia, Setembro 2007

A Escolha da Humanidade

A humanidade enfrenta hoje uma escolha extrema: ecossocialismo ou barbárie.

Não precisamos de mais provas da natureza bárbara do capital, este sistema parasita que explora a humanidade e a natureza. Seu único motor é o imperativo rumo ao lucro e logo a necessidade de crescimento constante. Ele cria produtos desnecessários de maneira dispendiosa, drenando os limitados recursos naturais e dando em retorno toxinas e poluição. Sob o capitalismo, a única medida de crescimento é quanto é vendido cada dia, cada semana, cada ano - incluindo vastas quantidades de produtos que são diretamente prejudiciais aos seres humanos e à natureza, produtos que não podem ser produzidos sem espalhar doenças, destruir as florestas que produzem o oxigênio que nós respiramos, devastar ecossistemas, e tratar nossa água e ar como se fossem esgotos do lixo industrial.

A ânsia do capitalismo pelo crescimento existe em todos os níveis, desde a empresa individual até o sistema como um todo. A fome insaciável das corporações é facilitada pela expansão imperialista na busca para ter cada vez mais acessos aos recursos naturais, mão-de-obra barata e novos mercados. O capitalismo sempre foi ecologicamente destrutivo, mas em nossa atual existência estas agressões à foram se acelerando. Uma mudança quantitativa está dando lugar à transformação qualitativa, levando o mundo a um ponto limite, à beira do desastre. Um time crescente de pesquisadores científicos tem identificado muitas maneiras nas quais pequenos aumentos na temperatura poderiam desencadear efeitos incontroláveis - tais como o derretimento rápido da camada de gelo da Groelândia ou a liberação do gás metano enterrada no gelo e no fundo do oceano - que tornaria inevitável uma catastrófica mudança do clima.

Sem controle, o aquecimento global terá impactos catastróficos nas vidas humana, animal e vegetal. A produção das colheitas se reduzirão drasticamente, gerando fome em larga escala. Centenas de milhões de pessoas serão deslocadas por secas em algumas áreas e por níveis elevados das marés em outras. Um clima caótico e imprevisível será a regra. Epidemias de malária, de cólera e mesmo de doenças mais mortais aniquilarão os mais pobres e os mais vulneráveis de cada sociedade.

O impacto da crise ecológica é mais devastador naqueles cujas vidas já foram ou vêm sendo destruídas pelo imperialismo inúmeras vezes na Ásia, África e América Latina, e os povos indígenas de todas as partes são especialmente vulneráveis. A destruição ambiental e as mudanças do clima constituem um ato de agressão dos ricos sobre os pobres.

A destruição ecológica, resultante da ânsia insaciável pelo lucro, não é uma característica acidental do capitalismo: está no DNA do sistema e não pode ser reprogramada. A produção orientada ao lucro considera somente um horizonte a curto prazo em suas decisões de investimento, e não consegue levar em consideração a saúde e a estabilidade a longo prazo do meio ambiente. A expansão econômica infinita é incompatível com ecossistemas finitos e frágeis, mas o sistema econômico capitalista não pode tolerar limites ao crescimento; sua necessidade constante de expansão subverte todos os limites que possam se impor em nome do "desenvolvimento sustentável." Assim o sistema capitalista inerentemente instável não pode regular sua própria atividade, muito menos superar as crises causadas por seu crescimento caótico e parasítico, porque fazê-lo exigiria colocar limites em sua acumulação - uma opção inaceitável para um sistema predicado na regra: Crescer ou Morrer.

Se o capitalismo continuar a ser a ordem social dominante, o melhor que podemos esperar são condições climáticas insuportáveis, a intensificação das crises sociais e a propagação das formas mais bárbaras de poder, como a luta dos poderes imperialistas entre si e com o Sul global para controlarem os cada vez mais escassos recursos naturais no mundo.

No pior dos casos, a vida humana pode não sobreviver.

Estratégias Capitalistas para Mudança

Não faltam estratégias para lidar com a ruína ecológica, incluindo a crise do aquecimento global em conseqüência do aumento imprudente do dióxido de carbono atmosférico. A grande maioria destas estratégias compartilha uma característica comum: são planejados por e agem em nome do sistema global dominante, o capitalismo.

Não é surpreendente que o sistema global dominante que é responsável pela crise ecológica também estabelece os termos do debate sobre esta crise, uma vez que o capital comanda os meios de produção do conhecimento, tanto quanto aquele do dióxido de carbono atmosférico. Conformemente, seus políticos, burocratas, economistas e professores proferem uma gama infinita das propostas, todas variações do tema que o dano ecológico do mundo pode ser reparado sem o desbaratamento dos mecanismos do mercado e do sistema de acumulação que comanda a economia mundial.

Mas uma pessoa não pode servir a dois mestres, ou seja, neste caso, a integridade da terra e a rentabilidade do capitalismo. Um deve ser descartado, e a história deixa poucas dúvidas sobre as alianças da vasta maioria dos atores políticos. Temos toda a razão, portanto, de duvidar radicalmente das ações estabelecidas para medir a escalada da catástrofe ecológica.

E certamente, além de um verniz cosmético, as reformas dos últimos 35 anos foram uma falha monstruosa. Melhorias individuais acontecem naturalmente, contudo elas são inevitavelmente oprimidas e varridas pela expansão impiedosa do sistema e da natureza caótica de sua produção.

Um exemplo demonstra este fracasso: nos primeiros quatro anos do século XXI, as emissões globais anuais de carbono eram quase três vezes maiores daquelas da década dos 1990s, apesar do surgimento do Protocolo de Kyoto em 1997.

Kyoto emprega dois mecanismos: o do Sistema "Cap and Trade" , que fixa um limite máximo de emissões e cria um mercado de livre troca de títulos de direito de emissão de carbono, e projetos no Sul global -- os chamados "Mecanismos de Desenvolvimento Limpo" (MDLs) -- para compensar as emissões das nações industriais. Todos estes instrumentos dependem dos mecanismos de mercado, o que significa, primeiramente, que o carbono atmosférico se transforma diretamente em uma commodity, logo sob o controle dos mesmos interesses das classes que criaram o aquecimento global em primeiro lugar. Os poluidores não são compelidos a reduzir suas emissões do carbono mas na verdade têm carta branca para usar seu poder monetário para controlar o mercado de carbono para seus próprios fins, o que inclui a exploração devastadora para mais carbono. Tampouco há um limite à quantidade de créditos da emissão, que podem ser emitidos por governos coniventes.

Dado que a verificação e a avaliação dos resultados é quase impossível, o regime de Kyoto não só é incapaz incapaz de um controle das emissões, mas dá margem também a amplas oportunidades de evasão e fraudes de todos os tipos. Como o jornal Wall Street Journal escreveu em março de 2007, o comércio de emissões "daria lucro para algumas grandes corporações, mas não acredite por um minuto sequer que esta trapaça fará muito pelo aquecimento global."

As reuniões de Bali em 2007 abriram precedentes para futuros abusos ainda maiores. Bali evitou a menção explícita dos objetivos drásticos para a redução do carbono elaborada pelos melhores cientistas dos clima (90% até 2050); abandonou os povos do Sul global à mercê do capital, ao dar a jurisdição do processo ao Banco Mundial; e deixou ainda mais fácil a compensação da poluição do carbono.

Para afirmar e garantir o futuro da humanidade, uma transformação revolucionária é necessária, na qual todos os esforços particulares devem ser vistos na luz de uma luta maior contra o próprio capital. Esta luta maior não pode ser meramente negativa e anti-capitalista. Ela deve anunciar um tipo diferente de sociedade, e isto é ecossocialismo.

A Alternativa Ecossocialista

O movimento ecossocialista visa parar e inverter o processo desastroso de aquecimento global em particular e do ecocídio capitalista em geral, e construir uma alternativa prática e radical ao sistema capitalista. O Ecossocialismo situa-se em uma economia transformada fundada nos valores não-monetários de justiça social e de equilíbrio ecológico. Ele critica tanto a "ecologia capitalista mercado" e o socialismo produtivista, que ignoraram o equilíbrio e limites da terra. Ele redefine o trajeto e o objetivo do socialismo dentro de uma estrutura ecológica e democrática.

O Ecossocialismo envolve uma transformação social revolucionária, que implique a limitação do crescimento e a transformação das necessidades por uma mudança profunda dos critérios econômicos quantitativos para os qualitativos, com ênfase no valor de uso em vez do valor de troca.

Estes objetivos exigem a tomada de decisão democrática na esfera econômica, permitindo a sociedade de definir coletivamente seus objetivos do investimento e da produção, e a coletivização dos meios de produção. Somente a tomada de decisão e a posse coletiva da produção podem oferecer a perspectiva a longo prazo que é necessária para o equilíbrio e a sustentabilidade de nossos sistemas sociais e naturais.

Além da grande escala de intervenções valiosas propostas pelo "movimento dos movimentos," uma perspectiva singular e central está começando a ser discutida: que, para afirmar e sustentar nosso futuro da humanidade,

As tentativas capitalistas de resolver a crise ecológica falharam: somente uma mudança profunda na própria natureza da civilização pode salvar a humanidade das conseqüências catastróficas da mudança do clima.

A rejeição do produtivismo e a mudança dos critérios econômicos quantitativos para os qualitativos envolve um repensar da natureza e dos objetivos da produção e da atividade econômica em geral. As atividades humanas criativas, não-produtivas e reprodutivas essenciais, tais como tomar conta da casa, cuidado e educação das crianças e adultos, as artes, todos serão valores chaves em uma economia ecossocialista.

O ar puro e a água e o solo fértil, assim como o acesso universal a alimentos sem agrotóxicos e às fontes de energia renováveis, não-poluidoras, são direitos naturais e básicos do ser humano básico defendidos pelo ecossocialismo. Longe de ser "despótico," a tomada de decisões coletiva nos níveis locais, regionais, nacionais e internacionais ocasiona o exercício da sociedade de liberdade e responsabilidade comuns. Esta liberdade de decisão constitui uma libertação das "leis" econômicas alienantes do sistema capitalista orientadas ao crescimento.

Para evitar o aquecimento global e outros perigos que ameaçam a sobrevivência humana e ecológica, setores inteiros da indústria e a agricultura devem ser suprimidos, reduzidos ou reestruturados e outros devem ser desenvolvidos, fornecendo emprego para todos. Uma transformação tão radical é impossível sem o controle coletivo dos meios de produção e o planejamento democrático da produção e da troca. As decisões democráticas sobre o investimento e o desenvolvimento tecnológico devem substituir o controle das empresas capitalistas, acionistas e bancos, a fim de proporcionar um horizonte a longo prazo dos bens comuns da sociedade e da natureza.

Os elementos mais oprimidos da sociedade humana, os povos pobres e os indígenas, devem ter um papel central na revolução ecossocialista, a fim de revitalizar as tradições ecológicas sustentáveis e dar voz àqueles que o sistema capitalista não pode ouvir. Dado que os povos do sul global e os pobres são geralmente as primeiras vítimas da destruição capitalista, suas lutas e demandas ajudarão a definir os contornos da sociedade ecológica e sustentável economicamente a ser criada. Similarmente, a igualdade de gênero é integral ao ecossocialismo, e os movimentos de mulheres têm estado entre os grupos oponentes mais ativos da opressão capitalista. Outros agentes potenciais da mudança revolucionária do ecossocialismo existem em todas as sociedades.

Tal processo não pode começar sem uma transformação revolucionária das estruturas sociais e políticas baseadas no apoio ativo, pela maioria da população, de um programa do ecossocialista. A luta do trabalho - trabalhadores, fazendeiros, os sem-terra e desempregados - pela justiça social é inseparável da luta pela justiça ambiental. O capitalismo, explorador social e ecológico e poluidor, é o inimigo da natureza e do trabalho em igual medida.

O Ecossocialismo propõe transformações radicais:


no sistema energético, substituindo os combustíveis fósseis e biocombustíveis por fontes limpas energéticas com controle social: eólica, geotérmica, marítima, e, principalmente, solar;
no sistema de transporte, reduzindo drasticamente o uso de caminhões e de carros particulares, substituindo-os por transporte público grátis e eficiente;
nos padrões atuais de produção, consumo e construção, que são baseados no lixo, na obsolência inata, na competição e poluição, e produzir no lugar bens sustentáveis e recicláveis, e adotar a arquitetura verde sustentável;
na produção e distribuição de alimentos, ao defender a soberania alimentar local o máximo possível, eliminando o agronegócio industrial poluidor, criando agro-ecossistemas sustentáveis e trabalhando ativamente para renovar a fertilidade do solo.

Para teorizar e trabalhar para concretizar o objetivo de um socialismo verde não significa que não devemos lutar por reformas concretas e urgentes agora. Sem nenhuma ilusão acerca de um "capitalismo limpo," devemos tentar ganhar tempo e impor nos poderes - quer sejam governos, corporações, instituições internacionais - algumas mudanças elementares mas essenciais:


redução drástica e obrigatória da emissão de gases estufa;

desenvolvimento de fontes limpas de energia;
provisão de um sistema extenso de transporte público grátis;
substituição progressiva de caminhões por trens;

criação de programas de despoluição;

eliminação da energia nuclear e do orçamento bélico.

Estas, além de demandas similares, estão no coração da agenda do movimento pela Justiça Global e dos Fóruns Sociais Mundiais, que tem promovido, desde Seattle em 1999, a convergência de movimentos sociais e ambientais numa luta comum contra o sistema capitalista.

A devastação ecológica não será paralisada nas salas de conferências ou nas negociações de tratados: somente a ação de massa pode fazer a diferença. Os trabalhadores urbanos e rurais, os povos do Sul global e os povos indígenas de todo o mundo estão na vanguarda desta luta contra injustiça social e ambiental, combatendo as multinacionais exploradoras e poluidoras, o agronegócio químico venenoso e desregulado, as invasivas sementes geneticamente modificadas, e os biocombustíveis que agravam a crise alimentar. Nós devemos intensificar estes movimentos socio-ambientais e construir a solidariedade entre as mobilizações ecológicas anti-capitalistas no Norte e no Sul.

Esta Declaração Ecossocialista é uma chamada à ação. As elites governantes encasteladas são poderosas, mas o sistema capitalista se revela diariamente cada vez mais falido financeira e ideologicamente, incapaz de superar as crises econômicas, ecológicas, sociais, alimentares e as outras crises que ele gera. E as forças da oposição radical estão vivas e são vitais. Em todos os níveis, local, regional e internacional, nós estamos lutando para criar um sistema alternativo baseado na justiça social e ecológica.

Nós abaixo assinados, endossamos a análise e as perspectivas políticas esboçadas na Declaração Ecossocialista de Belém, e apoiamos o estabelecimento e a construção de uma Rede Ecossocialista Internacional.

Tradução: Beatriz Leandro

Fonte: www.ecossocialistas.org.br

sexta-feira, setembro 11, 2009

MANIFESTO ECOSSOCIALISTA INTERNACIONAL

O século XXI se inicia com uma nota catastrófica, com um grau sem precedentes de desastres ecológicos e uma ordem mundial caótica, cercada por terror e focos de guerras localizadas e desintegradoras, que se espalham como uma gangrena pelos grandes troncos do planeta África Central, Oriente Médio, América do Sul e do Norte , ecoando por todas as nações.

Na nossa visão, as crises ecológicas e o colapso social estão profundamente relacionados e deveriam ser vistos como manifestações diferentes das mesmas forças estruturais. As primeiras derivam, de uma maneira geral, da industrialização massiva, que ultrapassou a capacidade da Terra absorver e conter a instabilidade ecológica. O segundo deriva da forma de imperialismo conhecida como globalização, com seus efeitos desintegradores sobre as sociedades que se colocam em seu caminho. Ainda, essas forças subjacentes são essencialmente diferentes aspectos do mesmo movimento, devendo ser identificadas como a dinâmica central que move o todo: a expansão do sistema capitalista mundial.

Rejeitamos todo tipo de eufemismos ou propaganda que suavizem a brutalidade do sistema: todo mascaramento de seus custos ecológicos, toda mistificação dos custos humanos sob os nomes de democracia e direitos humanos. Ao contrário, insistimos em enxergar o capital a partir daquilo que ele realmente fez.

Agindo sobre a natureza e seu equilíbrio ecológico, o sistema, com seu imperativo de expansão constante da lucratividade, expõe ecossistemas a poluentes desestabilizadores, fragmenta habitats que evoluíram milhões de anos de modo a permitir o surgimento de organismos, dilapida recursos, e reduz a vitalidade sensual da natureza às frias trocas necessárias à acumulação de capital.

Do lado da humanidade, com suas exigências de autodeterminação, comunidade e existência plena de sentido, o capital reduz a maioria das pessoas do mundo a mero reservatório de mão-de-obra, ao mesmo tempo em que descarta os considerados inúteis. O capital invadiu e minou a integridade das comunidades por meio de uma cultura de massas global de consumismo e despolitização. Ele expandiu as disparidades de riqueza e de poder em níveis sem precedentes na história. Trabalhou lado a lado com uma rede de Estados corruptos e subservientes, cujas elites locais, poupando o centro, executam o trabalho de repressão. O capital também colocou em funcionamento, sob a supervisão das potências ocidentais e da superpotência norte-americana, uma rede de organizações trans-estatais destinada a minar a autonomia da periferia, atando-a às suas dívidas enquanto mantém um enorme aparato militar que força a obediência ao centro capitalista.

Nós entendemos que o atual sistema capitalista não pode regular, muito menos superar, as crises que deflagrou. Ele não pode resolver a crise ecológica porque fazê-lo implica em colocar limites ao processo de acumulação uma opção inaceitável para um sistema baseado na regra “cresça ou morra!”. Tampouco ele pode resolver a crise posta pelo terror ou outras formas de rebelião violenta, porque fazê-lo significaria abandonar a lógica do império, impondo limites inaceitáveis ao crescimento e ao “estilo de vida” sustentado pelo império. Sua única opção é recorrer à força bruta, incrementando a alienação e semeando mais terrorismo e contra-terrorismo, gerando assim uma nova variante de fascismo.

Em suma, o sistema capitalista mundial está historicamente falido. Tornou-se um império incapaz de se adaptar, cujo gigantismo expõe sua fraqueza subjacente. O sistema capitalista mundial é, na linguagem da ecologia, profundamente insustentável e, para que haja futuro, deve ser fundamentalmente transformado ou substituído.

É dessa forma que retornamos à dura escolha apresentada por Rosa Luxemburgo: “Socialismo ou Barbárie!”, em que a face da última está impressa neste século que se inicia na forma de eco-catástrofe, terror e contra-terror e sua degeneração fascista.

Mas por que socialismo, por que reviver esta palavra aparentemente consignada ao lixo da história pelos equívocos de suas interpretações no século XX? Por uma única razão: embora castigada e não realizada, a noção de socialismo ainda permanece atual para a superação do capital. Se o capital deve ser superado, uma tarefa dada como urgente considerando a própria sobrevivência da civilização, o resultado será necessariamente“socialista”, pois esse é o termo que designa a passagem a uma sociedade pós-capitalista. Se dizemos que o capital é radicalmente insustentável e se degenera em barbárie, delineada acima, então estamos também dizendo que precisamos construir um “socialismo” capaz de superar as crises que o capital iniciou. E se os “socialismos” do passado falharam nisso, é nosso dever, se escolhemos um fim outro que não a barbárie, lutar por um socialismo que triunfe. Da mesma forma que a barbárie mudou desde os tempos em que Rosa Luxemburgo enunciou sua profética alternativa, também o nome e a realidade do “socialismo” devem ser adequados aos tempos atuais.

É por essas razões que escolhemos nomear nossa interpretação de “socialismo” como um ecossocialismo, e nos dedicar à sua realização.


Por que Ecossocialismo?

Entendemos o ecossocialismo não como negação, mas como realização dos socialismos da “primeira época” do século vinte, no contexto da crise ecológica. Como seus antecessores, o ecossocialismo se baseia na visão de que capital é trabalho passado reificado, e se fortalece a partir do livre desenvolvimento de todos os produtores, ou em outras palavras, a partir da não separação entre produtores e meios de produção. Entendemos que essa meta não teve sua implementação possível no socialismo da “primeira época”. As razões dessa impossibilidade são demasiadamente complexas para serem aqui rapidamente abordadas, cabendo, entretanto, mencionar os diversos efeitos do subdesenvolvimento no contexto de hostilidade por parte das potências capitalistas. Essa conjuntura teve efeitos nefastos sobre os socialismos existentes, principalmente no que ser refere à negação da democracia interna associada à apologia do produtivismo capitalista, o que conduziu ao colapso dessas sociedades e à ruína de seus ambientes naturais.

O ecossocialismo retém os objetivos emancipatórios do socialismo da “primeira época”, ao mesmo tempo em que rejeita tanto os objetivos reformistas da social-democracia quanto às estruturas produtivistas das variações burocráticas do socialismo. O ecossocialismo insiste em redefinir a trajetória e objetivo da produção socialista em um contexto ecológico. Ele o faz especificamente em relação aos “limites ao crescimento”, essencial para a sustentabilidade da sociedade. Isso sem, no entanto, impor escassez, sofrimento ou repressão à sociedade. O objetivo é a transformação das necessidades, uma profunda mudança de dimensão qualitativa, não quantitativa. Do ponto de vista da produção de mercadorias, isso se traduz em uma valorização dos valores de uso em detrimento dos valores de troca um projeto de relevância de longo prazo baseado na atividade econômica imediata.

A generalização da produção ecológica sob condições socialistas pode fornecer a base para superação das crises atuais. Uma sociedade de produtores livremente associados não cessa sua própria democratização. Ela deve insistir em libertar todos os seres humanos como seu objetivo e fundamento. Ela supera assim o impulso imperialista subjetiva e objetivamente. Ao realizar tal objetivo, essa sociedade luta para superar todas as formas de dominação, incluindo, especialmente, aquelas de gênero e raça. Ela supera as condições que conduzem a distorções fundamentalistas e suas manifestações terroristas. Em síntese, essa sociedade se coloca em harmonia ecológica com a natureza em um grau impensável sob as condições atuais. Um resultado prático dessas tendências poderia se expressar, por exemplo, no desaparecimento da dependência de combustíveis fósseis característica do capitalismo industrial , que, por sua vez, poderia fornecer a base material para o resgate das terras subjugadas pelo imperialismo do petróleo, ao mesmo tempo em que possibilitaria a contenção do aquecimento global e de outras aflições da crise ecológica.

Ninguém pode ler estas recomendações sem pensar primeiro em quantas questões práticas e teóricas elas suscitam e, segundo e mais desesperançosamente, em quão remotas elas são em relação à atual configuração do mundo, tanto no que se refere ao que está baseado nas instituições quanto no que está registrado nas consciências. Não precisamos elaborar estes pontos, os quais deveriam ser instantaneamente reconhecidos por todos. Mas insistimos que eles devem ser tomados na perspectiva adequada. Nosso projeto não é nem detalhar cada passo deste caminho nem se render ao adversário devido à preponderância do poder que ostenta. Nosso projeto consiste em desenvolver a lógica de uma suficiente e necessária transformação da atual ordem e começar a dar os passos intermediários em direção a esse objetivo. O fazemos para pensar mais profundamente nessas possibilidades e, ao mesmo tempo, iniciar o trabalho de reunir aqueles de idéias semelhantes. Se existe algum mérito nesses argumentos, então ele precisa servir para que práticas e visões semelhantes germinem de maneira coordenada em diversos pontos do globo. O ecossocialismo será universal e internacional, ou não será. As crises de nosso tempo podem e devem ser vistas como oportunidades revolucionárias, e como tal temos o dever de afirmálas e concretizá-las.


David Barkin, Arran Gare, Howie Hawkins, Joel Kovel, Richard Lichtman, Peter Linebaugh, Ariel Salleh, Walt Sheasby, Ahmet Tonak, Victor Wallis (Estados Unidos), Laurent Garrouste, Jean-Marie Harribey, Michael Löwy, Pierre Rousset, Bernard Teisseire (França), Charles-André Udry (Suiça), Cristobal Cervantes, José Tapia (Espanha), Renan Vega (Colômbia), Isabel Loureiro, Marcos Barbosa de Oliveira, Renata Menasche (Brasil).

quarta-feira, setembro 09, 2009

ZENBUDISMO NA VIDA E NO TRABALHO

Leonardo Boff


O zenbundismo pode significar uma fonte inspiradora para o paradigma ocidental em crise bem como para a vida cotidiana. Isso porque o zen não é uma teoria ou filosofia. É uma prática de vida que se inscreve na tradição das grandes sabedorias da humanidade. O zen pode ser vivido pelas mais diferentes pessoas, simples donas de casa, empresários e pessoas religiosas de diferentes credos.

O centro para o zenbudismo não está na razão, tão importante para a nossa cultura ocidental. Mas na consciência. Para nós a consciência é algo mental. Para o zenbudismo cada sentido corporal possui a sua consciência: a visão, o olfato, o paladar, a audição e o tato. Um sexto é a razão. Tudo se concentra em ativar com a maior atenção possível cada uma destas consciências, a partir das coisas do dia-a-dia. Possuir uma atitude zen é discernir cada nuance do verde, perceber cada ruido, sentir cada cheiro, aperceber-se de cada toque. E estar atento às perlambulações da razão no seu fluxo interminável.

Por isso, o zen se constrói sobre a concentração, a atenção, o cuidado e a inteireza em tudo aquilo que se faz. Por exemplo, expulsar um gato da poltrona pode ser zen; também libertar os chacorros do canil e deixá-lo correr pelo no jardim. Conta-se que um guerreiro samurai antes de uma batalha visitou um mestre zen e lhe perguntou: “que é o céu e o inferno”? O mestre respondeu: “para gente armada como você não perco nenhum minuto”. O samurai enfurecido tirou a espada e disse:”por tal senvergonhice poderia matá-lo agora mesmo”. E ai disse-lhe calmamente o mestre:”eis ai o inferno”. O samurai caiu em si com a calma do mestre, meteu a espada na bainha e foi embora. E o mestre lhe gritou atrás:”eis ai o céu.”

O que a atitude zen visa, é a completa integração da pessoa com a realidade que vive. Deparamo-nos no meio de difenças, compartimentando nossa vida. O zen busca o vazio. Mas esse vazio não é vazio. É o espaço livre no qual tudo pode se formar. Por isso não podemos ficar presos a isto e àquilo. Quando um discípulo perguntou ao mestre:”quem somos”? respondeu apontando simplemente para o universo: “somos tudo isso”. Você é a planta, a ávore, a montanha, a estrela, o inteiro universo. Quando nos concentramos totalmene em tais realidades, nos identificamos com elas. Mas isso só é possível se ficarmos vazios e permitirmos que as coisas nos tomem totalmente. O pequeno eu desaparece para surgir o eu profundo. Então somos um com o todo. Este caminho exige muita disciplina. Não é nada fácil ultrapassar as flutuações de cada uma das consciências e criar um centro unificador.

Há uma base cosmológica para a busca desta unidade originária. Hoje sabemos que todos os seres provém dos elementos físicoquímicos que se forjaram no coração das grandes estrelas vermelhas que depois explodiram. Todos estávamos um dia juntos naquele coração incandecente. Guardamos uma memória cósmica desta nossa ancestraidade.

Depois, sabemos também que possuimos o mesmo código genético de base presente em todos os demais seres vivos. Viemos de uma bactéria primordial surgida há 3,8 bilhões de anos. Formamos a única e sagrada comunidade de vida.

Ao buscar um centro unificador, o zen nos convida a fazer esta viagem interior. É excusado dizer que tudo isso vale para todos mas principalmente para mim.

Leonardo Boff é teólogo e autor de "Tempo de Transcendência: o ser humano como projeto infinito", Vozes 2009.

(Colaboração: Valéria Viana Labrea)

MUDEMOS A MENTALIDADE; E JÁ!

Paccelli José Maracci Zähler


O título do presente relato foi tomado emprestado do conto “Eficiência Militar (historieta chinesa)”, de autoria do célebre escritor Lima Barreto, do qual sou fã incondicional, publicado na Revista CARETA, Rio de Janeiro, em 9 de setembro de 1922.
No conto, Lima Barreto nos brinda com a história de Li-Huang-Pô, vice-rei da Província de Cantão, Império da China, e de Fu-Shi-Tô, general do exército a serviço do vice-reinado.
O vice-rei andava desanimado porque todas as medidas tomadas para melhorar a eficiência do exército encarregado de protegê-lo e à província haviam fracassado.
Foi então que, ao assistir o fiasco das manobras executadas pelo seu bem alimentado e equipado exército, recebeu a sugestão do comandante em chefe, o general Fu-Shi-Tô, de que os “defeitos” da tropa eram fáceis de remediar, pois bastava trocar o uniforme.
O vice-rei Li-Huang-Pô, após meditar algum tempo, sentenciou:
- Mudemos o uniforme; e já!
A historieta de Lima Barreto me reportou a um tema atual. Animados por um artigo de autoria do jornalista André Trigueiro, intitulado “A farra dos sacos plásticos”, escrito em 2003, algumas grandes redes de supermercados e governos estaduais, apoiados por organizações não-governamentais que atuam em Educação Ambiental, começam a se mobilizar para reduzir o uso do plástico.
A medida, embora tenha um impacto positivo na opinião pública, não resolve o problema da permanência do plástico por centenas de anos no meio ambiente porque outras “necessidades” são “criadas”.
Já se vê nos caixas das grandes redes de supermercados sacolas “ecológicas” à venda para colocar as mercadorias recém-compradas. Nas gôndolas, o preço dos sacos plásticos específicos para lixo anda pela hora da morte.
Em outras palavras, o supermercado deixa de fornecer o saco plástico com a sua marca, cujo valor está (e continuará) incluído no preço da mercadoria e ainda lucra com a venda das sacolas “ecológicas” e com os rolos de sacos plásticos exclusivos para lixo; e ainda sai a alardear sua “responsabilidade ambiental”, apoiada por governantes “politicamente corretos” que só se preocupam com o nosso voto nas próximas eleições.
Simplesmente está se trocando seis por meia-dúzia, isto é, deixaremos de usar a sacola plástica com a marca do supermercado e adquiriremos sacolas “ecológicas” e rolos de sacos plásticos para colocar o lixo.
Onde está a redução do uso do plástico? Não seria mais proveitoso acabarmos com o consumismo de bens inúteis? Não é melhor nos preocuparmos com a reciclagem das lâmpadas fluorescentes, das baterias de celulares, com as emissões de gases tóxicos dos carros, aviões, navios, caminhões e ônibus de transporte coletivo? Ou, quem sabe, acabar com a ligação entre a novidade tecnológica e o status social?
Assim, parafraseando Lima Barreto, ouso decretar:
- Mudemos a mentalidade; e já!

quarta-feira, julho 22, 2009

sexta-feira, julho 17, 2009

MAR BRAVIO

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Fonte: Internet.

Colaboração: Hamilton de Sousa Barbosa.

quinta-feira, julho 16, 2009

CRUELDADE COM OS ANIMAIS (16.JUL.2009)

O Portal de Notícias da Globo

16/07/09 - 09h45 - Atualizado em 16/07/09 - 10h34

Adolescente pega um ano de prisão nos EUA por deixar gatinha queimar em forno
Jovem de 17 furtava apartamento no Bronx quando cometeu o crime.
Na saída do tribunal, ela mostrou a língua para ativistas pró-animais.

Da AP, em Nova York

Uma adolescente nova-iorquina de 17 anos foi condenada a um ano de prisão nesta quinta-feira (17) por ter deixado uma filhote de gato queimar até a morte em um forno e por tentativa de furto.

O incidente ocorreu em 6 de maio, quando ela e um amigo de 14 anos tentavam furtar objetos em um apartamento no Bronx.

A adolescente admitiu a culpa e chegou a um acordo com o tribunal. Ela disse que "errou" ao não salvar a gata, que havia sido colocada no forno pelo amigo. O animal gritou e arranhou a tampa antes de morrer.

Na saída da corte, a jovem foi vaiada por ativistas pró-direitos dos animais. Ela desafiou-os mostrando a língua e disse que a filhote, chamada Tiger Lily, "estava morta".

Fonte:http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL1231831-5602,00.html

terça-feira, julho 14, 2009

AQUECIMENTO GLOBAL: ALERTA!

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Fonte: Internet.
Colaboração: Werner Ximendes Beck.

segunda-feira, junho 29, 2009

EARTH SONG, by Michael Jackson



Earth Song Lyrics

What about sunrise
What about rain
What about all the things
That you said we were to gain
What about killing fields
Is there a time
What about all the things
That you said was yours and mine...
Did you ever stop to notice
All the blood we've shed before
Did you ever stop to notice
This crying Earth this weeping shore?

Aaaaaaaah Oooooooh
Aaaaaaaah Oooooooh

What have we done to the world
Look what we've done
What about all the peace
That you pledge your only son...
What about flowering fields
Is there a time
What about all the dreams
That you said was yours and mine...
Did you ever stop to notice
All the children dead from war
Did you ever stop to notice
This crying Earth this weeping shore

Aaaaaaaah Oooooooh
Aaaaaaaah Oooooooh

I used to dream
I used to glance beyond the stars
Now I don't know where we are
Although I know we've drifted far

Aaaaaaaah Oooooooh
Aaaaaaaah Oooooooh

Aaaaaaaah Oooooooh
Aaaaaaaah Oooooooh

Hey, what about yesterday (what about us)
What about the seas (what about us)
The heavens are falling down (what about us)
I can't even breathe (what about us)
What about Africans (what about us)
I ain't even you (what about us)
What about nature's worth (ooh ooh)
It's our planet's womb (ahat about us)

What about animals (what about it)
We've turned kingdoms to dust (what about us)
What about elephants (what about us)
Have we lost their trust (what about us)
What about crying whales (what about us)
We're ravaging the seas (what about us)
What about forest trails (ooh ooh)
Burnt despite our pleas (what about us)

What about the holy land (what about it)
Torn apart by creed (what about us)
What about the common man (what about us)
Can't we set him free (what about us)
What about children dying (what about us)
Can't you hear them cry (what about us)
Where did we go wrong (ooh ooh)
Someone tell me why (what about us)

What about babies born (what about it)
What about the days (what about us)
What about all their joy (what about us)
What about the man (what about us)
What about the crying man (what about us)
What about Abraham (what about us)
What about death again (ooh ooh)
Do we give a damn

Aaaaaaaah Oooooooh
Aaaaaaaah Oooooooh

sábado, junho 20, 2009

DIA MUNDIAL DOS REFUGIADOS (20.JUN)

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Lembremo-nos deles!

Mensagem do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, com atriz Angelina Jolie.

Fonte: YouTube.

ÁGUA MARAVILHOSA

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Fonte: Internet.
Colaboração: Carlos Horácio de Moura Lima.

domingo, maio 31, 2009

Campanha de Proteção ao Bugio (RS)

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Colaboração: Engº Agrº Claus Lau, Santa Cruz do Sul, RS.

sexta-feira, abril 03, 2009

ECONOMIZEMOS ÁGUA

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Fonte: Internet.

Achei muito bonito esse vídeo da WWF que me foi enviado pela internet. Infelizmente,não sei a origem, mas a mensagem é muito significativa.
A preocupação com a economia de água, um recurso natural que nos será caro nos próximos anos, deve começar no aprendizado dos primeiros passos.